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Carta na mesa
Participei do podcast Carta na Mesa, sobre futebol – embora o nome remeta a baralho – na tarde dessa terça-feira.
Recomendo a todos. É melhor que o Sala de Redação. Informação de nível e sem brigas idiotas.
Visite também o Carta na Manga, excelente blog sobre futebol.
impressionante
Holanda 2×0 Uruguai, Copa do Mundo de 1974.
Observem os minutos 2:35 e 4:45.
novo Dunga?
Wianey Carlet, o meu oráculo para questões ludopédicas, defendeu há tempos que Edinho poderia ser o novo Dunga – um jogador conhecido pelo futebol feio, mas que evoluiu à medida em que amadureceu. Atualmente, a semelhança dos dois não vai além do fato de começar a carreira vestindo a camisa 8 do Internacional.
Porém, é visível que Edinho teve alguma evolução técnica. Não é mais o mesmo jogador de 2004 (quando inclusive atuou na zaga) nem de 2005, quando Muricy o forçou a jogar de líbero e era incumbida a ele a tarefa de sair para o jogo. Na memória da torcida, o Edinho de três dos últimos quatro anos ainda é muito presente. Além do mais, a torcida colorada viu grandes jogadores como Falcão, Batista, Tinga e Perdigão* atuando no meio campo, não se contenta com aqueles que só desarmam.
O mais novo comentarista de futebol Xip, o Nildo, afirma que Edinho tem uma produtividade melhor, tanto nos desarmes quanto no ataque, em relação a Magrão. Não é surpreendente. Magrão tem sido uma sombra do jogador altivo e raçudo dos tempos de São Caetano e Palmeiras. Dá passes apenas para o lado e para trás, nunca chuta a gol (o chute de fora da área era uma boa característica sua) e também não faz assistências. Nos tempos de Abel, era um jogador importante por que centralizava a distribuição do jogo – agora, com D’Alessandro, não precisa fazer isso.
Sendo assim, concordo com a idéia. Edinho, de fato, pode ser titular do Inter e Magrão, reserva.
confusão de papéis no jornalismo esportivo
Todo mundo sabe que o corporativismo marcha em sentido oposto à informação. O que acontece, porém, quando a pessoa tem duas profissões, e os papéis de ambas se opõem?
Falo de Francisco Garcia, jornalista da Rádio Gaúcha e árbitro de futebol. A Gaúcha tem o saudável hábito de colocar jornalistas dos seus quadros em cursos de arbitragem para garantir uma opinião isenta e clara sobre o trabalho do homem de preto. O profissional estuda regras, tem experiência como árbitro e como auxiliar, enfim, o kit completo.
Só que como todo árbitro é um ser humano, Chico Garcia também erra. Um dos momentos em que isso aconteceu foi no jogo entre Grêmio e Atlético-PR no domingo retrasado, pelo campeonato Brasileiro. Zé Antônio deu carrinho por trás em Soares.
Na hora, comentando o jogo, Chico disse que não daria o pênalti pois Zé teria ido na bola. Persistiu com este comentário. Apareceu o replay. Ele seguiu, coerente, afirmando o mesmo até o final da transmissão.
Quando vi o lance na hora, não vi pênalti claro, como amador que sou, pelo simples fato que a bola foi atingida pelo jogador do Atlético. Depois, confiei no que me disse Garcia.
Só que Chico tem um blog, e postou sobre o lance ilustrando com um vídeo. O vídeo dá o recurso de ver uma, duas, duzentas vezes o mesmo lance, pausar na hora fatal, etc. No blog,ele chama o lance de normal e logo depois coloca o vídeo, que mostra exatamente o contrário.
O vídeo não deixa dúvidas: pênalti, claro, Soares é atingido antes da bola. Resultado: 213 comentários ofensivos, contestando duramente o trabalho de Garcia. Talvez percebendo o erro que cometeu, ele afirma em um post subseqüente:
“Ainda acho que o carrinho tenha sido na bola e não de forma temerária ou com uso de força excessiva. Minha interpretação é do lance rápido, na hora. Ou seja, não estou cravando que não houve nada. Estou apenas dizendo que se eu estivesse no campo, naquele momento, também não daria o pênalti.”
Aqui, o post. Garcia, a meu ver, cometeu um erro básico: confundiu os seus papéis profissionais.
O árbitro deve decidir sobre o lance na hora, é sua prerrogativa, ainda mais quando a regra não permite reavaliações. Foi o que Chico fez: na hora, da transmissão, decidiu. Só que sua decisão estava errada. Aí, o árbitro continuou agindo, inclusive na hora de colocar no blog, quando deveria estar agindo o jornalista. O jornalista não pode divulgar uma informação que se comprova como errada.
Ao postar o esclarecimento e julgar como árbitro, Garcia deu a entender que viu o pênalti quando analisou o lance pela enésima vez. Aí, teria de agir como jornalista e esclarecer a sua opinião: foi pênalti, vi depois, como árbitro não daria, lance polêmico, etc. Era isso que o público precisava, saber a verdade. A confusão gerou 213 ofensas só entre os comentadores.
Não acredito que a função de comentarista de arbitragem perca sua utilidade por conta de erros como estes. Acredito que este comentarista deve dizer sempre o que está vendo, e se faz uso de milhares de replays, explique a situação aos seus leitores. Não dá é para informar erroneamente para manter uma atitude arbitral.
O 12º jogador
A NBA dá um prêmio anual para o reserva que entra melhor nas partidas, considerado o “sexto” jogador. No futebol, a regra não é tão flexível quanto a substituições; mesmo assim, o treinador também precisa pensar no reserva que seja mais eficiente. Celso Roth tem Reinaldo exercendo essa função. Tite acredita que Taison seja o seu 12º atleta, mas não tem dado certo, especialmente por que ele é um jogador leve e rápido como todos os outros atletas ofensivos do Inter.
Tite ainda não entendeu que o seu time precisa de um centroavante nas horas difíceis. Jogadores virtuosos como Nilmar, Alex, D’Alessandro e Daniel Carvalho são capazes de fazer tramas rápidas, tabelas, chegar bem ao gol. Porém, diante de uma linha defensiva bem recuada e com marcação individual, o aproveitamento é pequeno. Some isso à dificuldade emocional do time em lidar com tarefas adversas durante a partida, devido ao não cumprimento das expectativas na tabela, o resultado é um Inter com muita pressa de finalizar e definir a partida, mas com poucas condições reais de fazê-lo. Algumas rodadas atrás, esta dificuldade se devia à desorganização do time, vitimado pela chegada de muitos atletas e pela indecisão de Tite quanto ao esquema. Agora, o Inter parece ter definido o esquema e as funções dos principais jogadores em campo. A desorganização tende a diminuir em condições normais de pressão.
Em condições piores, como o segundo tempo contra o Flamengo após o gol, é inevitável que o time se desorganize um pouco. Tite pode facilitar as coisas escalando um centroavante e colocando os três zagueiros nas suas posições mais corretas. Luiz Carlos demonstrou que, embora não seja um extra-classe, tem condições de cumprir uma função tática determinada. Contra o Flamengo, ele poderia trocar de posição com Nilmar, chamando para si a marcação de Fábio Luciano e liberando o atacante do Inter para pegar a bola de frente para o gol. Isso facilitaria as tabelas com D’Alessandro, Gustavo Nery (bastante ofensivo na partida) e Magrão. Tite colocou Adriano no lugar de Alex, ainda no intervalo (1-0 para o Inter) com a idéia de não mudar muito a característica ofensiva do time. Poderia, entretanto, recuar Nilmar para fazer a função de Alex e colocar Luiz Carlos. Optou por uma solução conservadora e errônea, pois Adriano foi inoperante na partida.
Quanto à defesa, Bolívar está sendo sacrificado na função de líbero. Nunca foi um jogador com muita qualidade técnica na saída de jogo; o período no futebol francês acentuou esse problema. Além do mais, tem posicionamento ruim; esse atributo é fundamental para o funcionamento do esquema com três zagueiros. Quando Danny – bastante lento, mas seguro – entrou no lugar de Índio, Bolívar foi deslocado para a posição certa. Então, o Flamengo passou a atacar nas costas de Marcão, outro jogador com problemas sérios de posicionamento e concentração. É natural o time ser atacado quando perde meio campo (saída de Magrão, outro erro de Tite) e adianta a defesa; não é natural a facilidade com a qual o Flamengo chutou contra o gol de Clemer.
Índio poderá fazer melhor a função de zagueiro pelo centro. Se este zagueiro for colocado atrás, Danny é a melhor opção. Pela esquerda, Tite terá de inventar novas alternativas. O seu quase-homônimo (Titi) mostrava que poderia jogar naquela posição. Nunca vi Álvaro Luiz atuar por ali, mas é uma possibilidade.
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Esse texto está baseado na hipótese de permanência de Tite, que necessariamente passa por uma vitória no Gre-Nal da Sul-Americana. Neste jogo, o Inter enfrentará os seus principais demônios nos últimos tempos – a desorganização tática, o desgaste físico, a necessidade de fazer jogadores caros produzirem em alto nível. O adversário não poderia ser pior. O Grêmio, além de ser um arqui-rival jogando em casa, é um time organizado (mesmo com os reservas), bem preparado fisicamente e que estará disposto a jogar defensivamente, aproveitando os erros do Inter. Em poucas palavras, é uma tremenda armadilha para Tite.
Neste jogo o treinador colorado poderá escalar Luiz Carlos, até por que é provável que Alex pare por um bom tempo. Entretanto, a questão anímica será o principal problema. O Inter precisa marcar gols para se classificar, fato que traz uma pressão significativa. Por outro lado, qualquer mínimo erro do treinador será visto pela torcida como uma catástrofe. Seja pelo mau rendimento da equipe, seja pelo fiasco de ser eliminado pelos reservas do rival. A identificação histórica de Tite com o Grêmio não ajuda em nada, também.
Tite está passando por um rio lotado de piranhas com um bote de plástico. Com alguma sorte e bastante força nos remos, poderá chegar a margem. Se vacilar, afundará.
