Terça-Feira

pílulas semanais

Posts Tagueados ‘fogaça

Campeonatos Municipais de Votos: Porto Alegre

sem comentários

Uma explicação prévia: o título desse post é “Campeonatos Municipais de Votos” porque acredito que a analogia competitiva é a melhor possível para as eleições brasileiras. Os debates ideológicos passam longe das eleições, têm cara velha, só decidem de forma negativa. No último post vou desenvolver um pouco mais essa tese.

A aprovação do presidente Lula, atingindo picos de 60%, quase 80%, demonstra uma realidade de satisfação geral com o momento político do país. Não vou aqui entrar em detalhes sobre se este bom momento se deve às qualidades de Lula ou a outros fatores. O fato, porém, é que isso facilita a opção do eleitor por manter o que parece bom. O eleitor, em média, tem dificuldade em diferenciar boas administrações municipais, estaduais ou federais. Salvo exceções como o governo de Yeda Crusius (onde a falta de carisma da governadora é agravada pelo mau momento econômico do Estado e pelas denúncias de corrupção) as administrações, mesmo aquelas sem muitos méritos, são vistas com alguma simpatia.

Boa parte dos méritos de José Fogaça está em perceber essa tendência do povo brasileiro às reeleições – nada menos que 67% renovaram seus mandatos – mantendo uma postura altiva, de governante, mostrando o que foi feito sem baixar o nível. Some isso ao eficiente trabalho de assessoria de imprensa, com a mídia mostrando durante meses a efetividade das obras do camelódromo, do conduto, do viaduto e a beleza dos novos ônibus. Além disso, Fogaça conseguiu construir em torno de si uma aliança com inserção não apenas na classe AB com acesso aos meios de comunicação, mas também nas classes CDE, com as bandeiras históricas do PDT e do PTB.

Nessa eleição, Fogaça enfrentou uma oposição totalmente dividida em métodos e conceitos de campanha. Manuela D’Ávila era praticamente uma candidata de situação, como diria Rodrigo Alvares, pelo fato de ter na sua coligação o PPS, partido que participou do governo até o final.  Era a candidata mais carismática, apesar do conteúdo superficial, sem propostas afirmativas para quaisquer dos estratos sociais. Onyx era um candidato com propostas, fez uma oposição incisiva, mas o fato da sua base eleitoral ser a mesma de Fogaça pesou contra. Luciana Genro, mais à esquerda, ainda não tem um partido com densidade suficiente para conquistar muitos votos em todas as classes.

Foi ao segundo turno Maria do Rosário, com a grife do PT (Lula, Olívio, 16 anos de experiência no governo com índices de aprovação bastante aceitáveis) e a sua própria (mais de 60 mil votos como deputada em Porto Alegre, trabalho forte nas periferias). Tinha mais propostas, uma militância com tradição de chegada, foi bem nos debates. Porém, no segundo turno ficaram ainda mais evidentes as fraquezas do primeiro turno.

A primeira delas foi a divisão no partido. Aqui recorro a Paulo Cezar Rosa, com quem tive o prazer de trabalhar. Ele afirma no seu blog que a prévia Rossetto x Rosário foi “ritualística e desgastante”. Mais que isso: expôs feridas, como o apoio de todos os caciques ao ex-vice-governador e as ligações de Maria do Rosário com a estratégia política do PT paulista (José Dirceu, Marta Suplicy). Isso provocou caras feias dentro do próprio PT. A militância trabalhou, sem dúvida, mas a diferença de ímpeto em relação aos anos anteriores foi evidente. Petistas históricos não escondiam a falta de confiança em Maria e ampliavam os seus defeitos, como o personalismo e a postura pacifista.

Outro fato prejudicial foi uma suposta supervalorização dos poderes petistas na cidade. Apesar de ter inserção em todas as classes, o PT imaginou ser capaz de conquistar a maioria dos votos sozinho. A amplitude da aliança de Fogaça, entretanto, afogou essa possibilidade. O PT é o maior partido da cidade e do país, mas é incapaz de vencer sozinho e dividido. Rejeitou os aliados históricos, que foram com Manuela; demonstrou incapacidade de aglutinar forças com antigos adversários, por divergências ideológicas históricas. O próprio coordenador da campanha de Maria do Rosário, Cícero Balestro, diz na manhã desta segunda-feira que o PT deve rever suas políticas de alianças. O exemplo de Canoas é claro: embora nesta cidade o PT seja bem mais frágil, foi possível montar um plano para a cidade com partidos e pessoas de origens totalmente diversas. O PT de Lula mandou a coerência ideológica às favas em prol de um projeto para o país e está sendo bem sucedido em muitos pontos.

Aqui, um parêntese: ressalto novamente que não vou discutir as questões ideológicas ainda neste post.

Por último, recorro novamente ao Paulo Cezar para citar uma excelente frase sua: o PT de Porto Alegre é um excelente produtor de discos de vinil. Assim como 2004 – e ele cita este exemplo no seu blog, com mais detalhes – o partido tentou maquiar um projeto repleto de conceitos derivados da década de 90. Vejo aqui e ali muitos petistas reclamando acerca de uma capitalização excessiva das campanhas eleitorais, ou seja: quem manda é o dinheiro, não as idéias; o povo teve seus votos comprados, é reacionário; perdemos por que tentamos copiar as estratégias eleitorais da direita, como pagar publicitários, pessoas que carregam bandeiras e etc.

Ora, vamos aceitar a realidade. O PT adota essas estratégias há tempos. Desde 2002, pelo menos. Não por acaso, muitos se desencantaram e foram para outros partidos. Fossem esses os únicos problemas, não veríamos tantas vitórias de petistas aliados com PP e PMDB, também pagando bons publicitários e militantes com bandeiras. O que faltou foi o PT decidir se aceitaria o profissionalismo da sua campanha e adotaria de forma integral ou se faria uma campanha ao estilo dos velhos tempos. Ficou na dúvida e acabou demonstrando os defeitos das duas estratégias.

Essa crise de identidade derrubou o partido nas últimas duas eleições municipais e pode colocar em risco o projeto para o governo do Estado em 2010. A altíssima reprovação de Yeda Crusius em comparação com o governo Lula é um prato cheio para o PT lançar um nome forte, respaldado por uma ampla coalizão, para retornar ao Piratini. Tarso elogiou o PMDB; Olívio foi visto de mãos dadas com o PDT em Canoas; Zambiasi oferece o PTB ao diálogo. O PT gaúcho está construindo uma nova identidade própria. Admitir isso é o primeiro passo para seguir adiante.

Escrito por Luís Felipe

Outubro 28, 2008 em 7:47 am

EDIÇÃO EXTRA: análise do debate dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre, na Band, 18/09

com um comentário

Excepcionalmente, o Terça-Feira publica este post na sexta, antes das pesquisas do final de semana e logo depois do debate da Band, ontem. A questão é que uma breve pesquisa entre as pessoas razoavelmente informadas sobre o processo eleitoral me mostrou que NINGUÉM viu o debate para a prefeitura de Porto Alegre ontem. Assim, acho necessário publicar as minhas impressões antes que elas fiquem obsoletas.

Uma vantagem dos debates da Band é a possibilidade dos candidatos dissertarem sobre temas livres. No passado, isto proporcionou momentos históricos, como o histórico embate entre Antônio Britto e Olívio Dutra em 1998 – “o meu oponente, representante do continuísmo, tergiversa”. O debate de ontem começou com a empresa cedendo espaço para representantes de classes (presidentes da OAB e da Câmara de Dirigentes Lojistas) perguntarem aos candidatos.
 
A partir do segundo bloco, o confronto direto. Tema livre, pergunta direta aos candidatos. No início deste bloco ocorreu uma conversa entre Carlos Gomes (PHS, trem-bala) e José Fogaça acerca das origens do Orçamento Participativo. Gomes teria sido o mentor da idéia lá no governo Collares (86-89) e Fogaça encontrou nisso uma excelente oportunidade para cutucar o PT. “O OP está plenamente consolidado, não é mais promessa de campanha. Não é uma bandeira partidária, e sim da cidade”, comentou o candidato à reeleição, tirando da manga de Maria do Rosário uma das principais cartas da campanha.
 
É importante destacar esta passagem por que ela revelou uma tendência do debate. Fogaça aproveitou muito bem a escolta de Carlos Gomes, neste momento, e de Nélson Marchezan Jr. Cabe uma consideração acerca de Marchezan. Sabendo ser um candidato um tanto inexpressivo na campanha e adotando a mesma tática de Cristóvam Buarque, como referido no último post sobre eleições, Marchezan não teve pudores em defender a administração de Fogaça. Em determinado momento, ao fazer uma pergunta para o atual prefeito, o candidato do PSDB pediu de Fogaça uma ANÁLISE CONJUNTURAL das eleições de Porto Alegre. Ao que Fogaça, no final da amena conversa, encheu o PPS – seu ex-partido e atual aliado da sua principal opositora, Manuela – de elogios.
 
Estava curioso para ver o embate entre Maria do Rosário e Manuela d’Ávila, logo após as pesquisas recentes que dão Manuela em pleno crescimento. O PT tende a ser um partido bastante seguro e até arrogante em debates, organizando um discurso geral quando na oposição – mas é novidade para o partido enfrentar um candidato de oposição mais forte em Porto Alegre. Ocorreram apenas dois embates diretos entre Manuela e Rosário, antigas aliadas de bancada quando no Congresso Nacional – uma pergunta de Rosário sobre o Araújo Vianna e uma pergunta de Manuela sobre as Parcerias Público-Privadas, pedida por Maria do Rosário. Em ambos, a candidata do PT atacou com força o PPS, aliado da comunista e partido de Berfran, Busatto e Paulo Odone. Em ambos, pesou a camiseta do PT e a experiência de Maria do Rosário.
 
Manuela não parecia muito à vontade fora do estúdio e dos palanques. Demonstrou alguma insegurança. Quando perguntada sobre o Araújo Vianna, falou da importância da revitalização e que vai convocar o Conselho Municipal para isso. Quando Rosário argumentou que o PT revitalizou o local e que o PPS teria privatizado o auditório, Manuela sentiu o golpe. Questionou a aliança do PPS com o PT em 61 cidades do Rio Grande do Sul. Rosário antes tinha dito como Manuela seguraria as “velhas raposas” com quem ela dividia o palanque, ao que Manuela respondeu que “quem representava a velha política era ela”.
 
Lembrem o que foi dito no final do quarto parágrafo. Os elogios de Fogaça ao PPS aconteceram logo após essa discussão. O eleitor ignorante mal sabe quem é o PPS e pouco lembra quem são Berfran e Busatto -porém, ele sabe o que é privatização. Manuela poderia ter contraposto Rosário com uma argumentação positiva em defesa do seu partido, mas resolveu argumentar com o velho “se eu sou suja, você é também”. Pega mal. Daí a intervenção de Fogaça mostra muita coisa – talvez a estratégia do PMDB seja levar Manuela como adversária no segundo turno, ao contrário do que preconizou Paulo Sant’ana.
 
No terceiro bloco, os candidatos pediam para algum outro candidato lhes fazer uma pergunta. Neste bloco, Onyx demonstrou que é o candidato mais disposto a confrontar Fogaça – bem mais que Maria e Manuela. Cobrou do prefeito reeleito a promessa não cumprida da Passagem Única, como fora dito em 2004. O atual prefeito não foi muito bem na sua resposta, dizendo que o projeto dos Portais da Cidade estava previsto para o próximo mandato – o que absolutamente não constava na promessa anterior. Foi praticamente o único deslize de Fogaça no debate, mostrando que a pasteurização da campanha deixou o atual governante com a guarda baixa para ataques mais incisivos. Onyx também criticou, no segundo bloco, o fato da prefeitura estar “abandonada”, com um líder que ninguém conhecia – João Batista, procurador do Estado, motivo de matéria na ZH de hoje. Fogaça pediu direito de resposta e argumentou – com razão – que Onyx, ao argumentar que o procurador não foi eleito por ninguém, desconhecia a Lei Orgânica do município.
 
No segundo embate entre Manuela e Rosário, a candidata comunista pediu para Rosário argumentar sobre a viabilidade do metrô em Porto Alegre e a importância das parcerias público-privadas para tocar o projeto. A petista ressaltou a importância do governo federal no projeto e argumentou, novamente, acerca da sua experiência e do conhecimento da capital. Manuela replicou falando que Rosário não poderia defender as PPPs se o PT votou contra isto na Câmara Municipal e que Maria do Rosário não poderia dizer que era dona “da verdade, dos projetos ou das emendas”. Ao que Rosário argumentou: “Não sou dona da verdade, mas tenho mais experiência”, levantando sua história de 15 anos com militante do PT e lembrando, inclusive, que o seu vice pediu o impeachment de Olívio Dutra.
 
Neste sentido, pontos a favor de Rosário. Primeiro por que levantou a bandeira de Olívio Dutra, um ícone de honestidade na capital. Depois por que além de adotar um discurso propositivo, conseguiu dar golpes certeiros, ao contrário dos de Manuela, que foram ignorados. Falta a Manuela a experiência necessária para encarar o ninho de cobras do debate televisivo. Em segundos, um minuto e meio, é necessário agredir com classe e ainda por cima sorrir para o tele-espectador. Manuela sorriu, mas não foi agressiva e foi menos segura que todos os demais candidatos.
 
Uma palavra sobre Luciana Genro: ela afirmou que os debates eram a sua carta na manga. De fato Luciana estava bem preparada nos debates, sorriu, agrediu os seus principais alvos (PT e Fogaça) e apresentou grande segurança. Só que a sua campanha carece de maior base, de concretude. Talvez a juventude do PSOL e a falta de bases afirmadas em todos os setores da sociedade prejudiquem o seu programa de governo. Isso sem falar na inexplicável chapinha nos cabelos, mas isso já é uma questão conceitual…
 
Considerações finais
 
Manuela cresce nas pesquisas e demonstra ser capaz de vencer José Fogaça no segundo turno. O DataFolha, porém, publicou uma pesquisa hoje mesmo dando empate entre ela e a petista. Acredito que a tendência é a campanha de Manuela cair nas retas finais, pois muitos dos seus eleitores não pensam nos contras da sua candidatura – inexperiência, relações partidárias, etc – e acabam votando pelo discurso positivo. A questão é se Manuela perderá eleitores para Fogaça – no segundo turno – ou para Maria do Rosário, no primeiro. Maria está demonstrando maior capacidade de pegar os votos dos eleitores que tinham uma tendência para a ex-líder da UJS, pois seu discurso é concreto e com uma agressividade moderada.
 
O problema é que ninguém mais assiste debates. Não há uma mobilização total como nos anos 90, e a mídia contribui com isso ao não repercutir as discussões que ocorrem em outras emissoras. O único debate que não passará despercebido é o último, na RBS, quando as perguntas serão sorteadas, sem a liberdade do debate da Band. Ou seja: tende a ser um programa bem pior que o de ontem.

Escrito por Luís Felipe

Setembro 19, 2008 em 4:39 pm