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O acordo antiético e a faculdade de mãos atadas

com 8 comentários

Não tem como não opinar: Fabico e RBS assinaram um acordo de cooperação “técnica, científica e cultural” ontem. Sobre cooperação entendemos operação mútua, ou seja: a coisa parece mais do que garantir a reserva de mercado da RBS para estagiários da Ufrgs. Parece uma questão de influência mútua, de ajuda mútua, ainda que a notícia da Universidade fale apenas em estágios.

Ainda não há nada na Zero Hora, provavelmente sairá algo no domingo naquela coluna de auto-elogios. O site da Fabico nada diz, mas como não é informativo, não importa. É claro que as manifestações já começaram, por Wladymir Ungaretti. Eu também me sentiria ofendido ao ver a minha faculdade, que não moveu um dedo sequer para me apoiar em um processo judicial contra a liberdade de opinião, abraçar em seu seio justo a autora do processo.

No seu twitter, Rodolfo Mohr, estudante da Fabico, militante do Psol e outras tantas coisas, lembrou o que disse Marcelo Rech. “Sem a exigência do diploma, é necessário fortalecer a formação em comunicação”. A RBS e a Globo têm posições contraditórias acerca do tema: não se manifestaram de maneira contrária, mas a RBS não contrata ninguém sem formação e ainda incentiva as faculdades. Não é esse o ponto, vamos adiante.

Em primeiro lugar, tais acordos são antiéticos, qualquer que seja o ponto de vista. Do ponto de vista da universidade, é antiético aceitar cooperação de uma empresa de jornalismo porque a universidade é paga pelos impostos da população para manter a sua independência diante do mercado. No momento que essa independência acaba, a educação pública de nível superior não faz mais sentido. A independência inclui liberdade crítica e de opinião – não censurar blogs, por exemplo – liberdade experimental e por conseqüência, amplitude de conhecimento. Nenhum desses valores pode se perder por acordos de cooperação.

De parte da empresa, é antiético por que privilegia egressos de duas determinadas faculdades em detrimento de outras. Ilegal não é, uma vez que é empresa privada e pode estabelecer os critérios que quiser para contratações, desde que respeitando os valores legais. Há alguns problemas, porém: durante a universidade, jamais vi qualquer anúncio de vagas como estagiário na Rádio Gaúcha. Todos estavam loteados pela Famecos, por conta do acordo. No momento em que a empresa privilegia um método de formação e não a formação em si, desvaloriza seus próprios critérios e dá tratamento injusto e desigual a estudantes por motivos que nada têm a ver com o mérito.

Diante dessa falta de ética latente, não me assusto com a idéia de ver a Fabico lutando para colocar seus estudantes na RBS. É a principal empresa de comunicação do RS e possibilita uma boa formação a quem passa por lá. São dois fatos, o primeiro incontestável, o segundo eu digo baseado nos que estão ou saíram da empresa. Inclusive o próprio Wladymir Ungaretti, que nunca deixou de dizer em suas aulas que o aluno não deve recusar um trabalho na ZH, desde que saiba até onde vai e quantos sapos vai engolir. A formação acontece, existe. Mesmo que o estagiário do jornal comece entregando cartas na redação, as possibilidades de crescimento são bem relevantes.

Não acredito – ou não quero acreditar – que tal acordo de cooperação inclua subserviência acadêmica aos métodos e ideologias propostos pela RBS. Não sei de isso acontecer na PUC, que já tem o acordo firmado. Não imagino que Ungaretti seria censurado em suas aulas por dizer que a ZH é o pior jornalismo desse estado, também não creio que Canali seria proibido de lembrar toda a origem da Globo, seus vínculos com a ditadura e o acordo Time-Life. Também não acredito que os seus alunos sejam proibidos de veicular “Além do Cidadão Kane” ou tocar adiante o excelente blog Jornalismo B.

Assim como acho infeliz a associação entre o acordo atualmente firmado e o currículo vigente. Participei de algumas discussões curriculares a partir de 2003 e mesmo sendo muito crítico e às vezes, intransigente, nunca vi a intenção de “robotizar” o currículo ou transformar o curso em “técnico”. Vi uma série de necessárias adaptações à rotina da universidade. Não adiantaria obrigar a introdução ao ensino filosófico a quem entra na faculdade se a disciplina não tinha nenhuma coerência programática, nenhuma garantia de bom ensino. Não faz sentido inserir disciplinas como Sociologia e Língua Portuguesa se as disciplinas não tinham departamento, sendo híbridas entre o departamento dos professores e da cadeira, o que resultava num vazio completo de autoridade e na obrigação de ter muita sorte para conseguir um bom professor.

Ao mesmo tempo, acho o atual currículo um tanto avançado demais para a atual estrutura da UFRGS. Sempre foi fundamental colocar no aluno a responsabilidade de estudar os conteúdos da teoria básica, como Sociologia, Filosofia e etc. Porém, isso exige um “Ciclo Básico”, como ocorre na Unicamp e ocorreu na UFRGS por algum tempo. Ou seja: no primeiro ano, ou nos dois primeiros anos, o aluno complementa o seu ensino médio aprendendo teoria acadêmica. Depois, vai para a prática. Eu reconheço que fui contra isso na discussão curricular, reconheço que era a favor da prática logo no início da faculdade. Porém, hoje vejo que estava errado, pois o aluno recém saído do ensino médio tem cada vez menos maturidade intelectual para uma universidade.

Virão muitas manifestações, provavelmente, contra o acordo e suas conseqüências. Manifestações carregadas de conteúdo ideológico, o que não é nenhum demérito, mas que dificilmente ocorreriam se fosse a Record a assinar tal acordo. O que acredito, porém, é que no atual contexto a Fabico está de mãos atadas. Ela se vê obrigada a ampliar o leque de opções profissionais do estudante, mas ao mesmo tempo tem de usar a estultice de um acordo para isso.

O ideal é que as manifestações se direcionem para um ponto: acordos são antiéticos. Por isso, devem ser ilegais. Especialmente na área do jornalismo, extremamente restrita, esse tipo de reserva de mercado não é positivo para a sociedade. Pouco importa o nome da faculdade ou a empresa que faz isso.

UPDATE: O Sindicato dos Jornalistas afirma que o acordo é necessário para legalizar todo estágio em jornalismo. Leia mais.

Escrito por Luís Felipe

Agosto 13, 2009 às 9:14 am

Publicado em manhã

8 Respostas

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  1. Luís, não concordo com nada (como devias esperar). Não gosto de reserva de mercado, mas não acho antiético nem ilegal. E eu não gosto de reserva de mercado por um único motivo: É ANTICAPITALISTA, ANTILIBERAL, CONTRA A LÓGICA DE MERCADO (que aprecio bastante). Sem reserva de mercados, a concorrência é maior e… Os preços tendem a baixar. Burrice da empresa, na real.

    brunette

    Agosto 13, 2009 em 10:08 am

    • Olha, Bruna, com essa opinião tu me parece ser contra o acordo – o que de certa forma, corrobora algumas coisas que eu disse.

      Acho que levar essa questão para a discussão ideológica tende a ser uma redução ingênua. Só que quando tu fala em “anti-liberal”, concordo totalmente. Embora isso não vá afetar a competitividade da RBS – é líder de alguns mercados e detém o monopólio de outros – creio que para a sociedade, é injusto restringir o critério para contratação de estagiários.

      Esse tema vai longe.

      Luís Felipe

      Agosto 13, 2009 em 11:11 am

      • sou contra o acordo porque sou liberal e não gosto de reservas de mercado, motivo pelo qual não reclamei da queda do diploma… tema que vai longe. mas enfim, como disseste no teu post posterior, a reserva de mercado é institucionalizada.

        E eu nunca vou aprender a usar o hífen. Não tem a menor lógica.

        brunette

        Agosto 13, 2009 em 11:40 am

  2. Felipe, fico contente que tu continuas utilizando o blog como espaço para manifestar tuas idéias.

    Quanto ao acordo, tens argumentos merecedores de discussão, mas o Sindicato estava presente em sua formatação como sugere a notícia. Creio que os envolvidos foram cuidadosos a essas temáticas.

    Por outro lado, como sei que nunca esperas elogios e dás crédito às críticas, parece-me um pouco precipitada tua posição, pois ainda não possuímos acesso ao que foi acordado.

    Antes de formar uma opinião frente a isso, preciso saber o que realmente foi acordado.

    Qualquer cidadão pode trabalhar em uma redação no momento. O aluno da Fabico — formado ou não — já poderia bater à porta da RBS e de qualquer veículo.

    Por outro lado, deixo-te a pergunta.

    O fato de uma pessoa trabalhar em uma redação como repórter permite que ele exerça a profissão jornalística, mas este sujeito teria o título — em maiúsculo — de Jornalista ou o título continua sendo conquistado apenas na Universidade?

    Abraços!!!

    Gilberto Consoni

    Agosto 13, 2009 em 10:19 am

    • Consoni,
      Acho justa a reclamação quanto à precipitação do que eu disse. Porém, como o tema merece ser discutido, achei importante dizer isso agora, antes que a coisa se torne um tanto mais passional.

      Estou tentando nesse momento conferir mais informações sobre o acordo, tão logo saiba mais vou postar aqui e divulgar para vocês. Quero tornar públicas as posições da universidade e do sindicato sobre esse assunto de alguma forma.

      Sobre a tua provocação (hehehe) sei que o assunto por trás é a questão do diploma. Eu tenho uma opinião bem passional sobre o assunto – no momento que o diploma perde valor, a faculdade perde o sentido. Só que essa mesma opinião ainda está sendo refinada, recebi muitas críticas sobre o que penso, algumas relevei, outras estou digerindo lentamente.

      Grande abraço!

      Luís Felipe

      Agosto 13, 2009 em 11:07 am

      • Esperarei a nova postagem :)

        Outra provocação: Então a faculdade de publicidade também não tem sentido? Lembre que — como várias outras — a profissão de publicitário não exige diploma para ser exercida!

        Gilberto Consoni

        Agosto 13, 2009 em 11:18 am

  3. tu é ridiculo mané

    arlei

    Agosto 13, 2009 em 10:35 am


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