Archive for Agosto 2009
Sindicato dos Jornalistas: sem acordo, nenhum estágio é legal
Falando com o presidente do Sindicato, José Maria Nunes, deu para obter informações importantes sobre o acordo.
O argumento colocado no post anterior sobre a falta de ética do acordo, devido à reserva de mercado, não é bem assim. Nunes informou que o estágio em jornalismo DEVE ser regulamentado através desse tipo de acordo. É uma OBRIGAÇÃO. “O estágio em jornalismo só existe se for regulamentado com a autorização do sindicato”, nas suas palavras.
O CIEE, por exemplo, estaria à margem da lei. Estágio em jornalismo pelo CIEE seria exercício ilegal da profissão, nas suas palavras.
Logo, para estagiar EM QUALQUER EMPRESA, é necessário o tal acordo de cooperação. Se um shopping Center quiser contratar um estagiário de jornalismo, ele precisa assinar um acordo com a universidade e com o sindicato.
Nunes garante que o tal acordo só traz benefícios aos estudantes. “O objetivo é não tornar o estagiário de jornalismo mão de obra barata. Só existem cláusulas benéficas ao estudante, como a liberação em dias necessários para o estudo, o piso de 40% do piso da categoria”, afirmou.
Se há necessidade legal do acordo para acontecer o estágio, não faz sentido o acordo ser antiético. Mesmo assim, vou manter o que escrevi antes, por questão de…ética.
Ainda vou colocar aqui a posição da universidade sobre o tema.
O acordo antiético e a faculdade de mãos atadas
Não tem como não opinar: Fabico e RBS assinaram um acordo de cooperação “técnica, científica e cultural” ontem. Sobre cooperação entendemos operação mútua, ou seja: a coisa parece mais do que garantir a reserva de mercado da RBS para estagiários da Ufrgs. Parece uma questão de influência mútua, de ajuda mútua, ainda que a notícia da Universidade fale apenas em estágios.
Ainda não há nada na Zero Hora, provavelmente sairá algo no domingo naquela coluna de auto-elogios. O site da Fabico nada diz, mas como não é informativo, não importa. É claro que as manifestações já começaram, por Wladymir Ungaretti. Eu também me sentiria ofendido ao ver a minha faculdade, que não moveu um dedo sequer para me apoiar em um processo judicial contra a liberdade de opinião, abraçar em seu seio justo a autora do processo.
No seu twitter, Rodolfo Mohr, estudante da Fabico, militante do Psol e outras tantas coisas, lembrou o que disse Marcelo Rech. “Sem a exigência do diploma, é necessário fortalecer a formação em comunicação”. A RBS e a Globo têm posições contraditórias acerca do tema: não se manifestaram de maneira contrária, mas a RBS não contrata ninguém sem formação e ainda incentiva as faculdades. Não é esse o ponto, vamos adiante.
Em primeiro lugar, tais acordos são antiéticos, qualquer que seja o ponto de vista. Do ponto de vista da universidade, é antiético aceitar cooperação de uma empresa de jornalismo porque a universidade é paga pelos impostos da população para manter a sua independência diante do mercado. No momento que essa independência acaba, a educação pública de nível superior não faz mais sentido. A independência inclui liberdade crítica e de opinião – não censurar blogs, por exemplo – liberdade experimental e por conseqüência, amplitude de conhecimento. Nenhum desses valores pode se perder por acordos de cooperação.
De parte da empresa, é antiético por que privilegia egressos de duas determinadas faculdades em detrimento de outras. Ilegal não é, uma vez que é empresa privada e pode estabelecer os critérios que quiser para contratações, desde que respeitando os valores legais. Há alguns problemas, porém: durante a universidade, jamais vi qualquer anúncio de vagas como estagiário na Rádio Gaúcha. Todos estavam loteados pela Famecos, por conta do acordo. No momento em que a empresa privilegia um método de formação e não a formação em si, desvaloriza seus próprios critérios e dá tratamento injusto e desigual a estudantes por motivos que nada têm a ver com o mérito.
Diante dessa falta de ética latente, não me assusto com a idéia de ver a Fabico lutando para colocar seus estudantes na RBS. É a principal empresa de comunicação do RS e possibilita uma boa formação a quem passa por lá. São dois fatos, o primeiro incontestável, o segundo eu digo baseado nos que estão ou saíram da empresa. Inclusive o próprio Wladymir Ungaretti, que nunca deixou de dizer em suas aulas que o aluno não deve recusar um trabalho na ZH, desde que saiba até onde vai e quantos sapos vai engolir. A formação acontece, existe. Mesmo que o estagiário do jornal comece entregando cartas na redação, as possibilidades de crescimento são bem relevantes.
Não acredito – ou não quero acreditar – que tal acordo de cooperação inclua subserviência acadêmica aos métodos e ideologias propostos pela RBS. Não sei de isso acontecer na PUC, que já tem o acordo firmado. Não imagino que Ungaretti seria censurado em suas aulas por dizer que a ZH é o pior jornalismo desse estado, também não creio que Canali seria proibido de lembrar toda a origem da Globo, seus vínculos com a ditadura e o acordo Time-Life. Também não acredito que os seus alunos sejam proibidos de veicular “Além do Cidadão Kane” ou tocar adiante o excelente blog Jornalismo B.
Assim como acho infeliz a associação entre o acordo atualmente firmado e o currículo vigente. Participei de algumas discussões curriculares a partir de 2003 e mesmo sendo muito crítico e às vezes, intransigente, nunca vi a intenção de “robotizar” o currículo ou transformar o curso em “técnico”. Vi uma série de necessárias adaptações à rotina da universidade. Não adiantaria obrigar a introdução ao ensino filosófico a quem entra na faculdade se a disciplina não tinha nenhuma coerência programática, nenhuma garantia de bom ensino. Não faz sentido inserir disciplinas como Sociologia e Língua Portuguesa se as disciplinas não tinham departamento, sendo híbridas entre o departamento dos professores e da cadeira, o que resultava num vazio completo de autoridade e na obrigação de ter muita sorte para conseguir um bom professor.
Ao mesmo tempo, acho o atual currículo um tanto avançado demais para a atual estrutura da UFRGS. Sempre foi fundamental colocar no aluno a responsabilidade de estudar os conteúdos da teoria básica, como Sociologia, Filosofia e etc. Porém, isso exige um “Ciclo Básico”, como ocorre na Unicamp e ocorreu na UFRGS por algum tempo. Ou seja: no primeiro ano, ou nos dois primeiros anos, o aluno complementa o seu ensino médio aprendendo teoria acadêmica. Depois, vai para a prática. Eu reconheço que fui contra isso na discussão curricular, reconheço que era a favor da prática logo no início da faculdade. Porém, hoje vejo que estava errado, pois o aluno recém saído do ensino médio tem cada vez menos maturidade intelectual para uma universidade.
Virão muitas manifestações, provavelmente, contra o acordo e suas conseqüências. Manifestações carregadas de conteúdo ideológico, o que não é nenhum demérito, mas que dificilmente ocorreriam se fosse a Record a assinar tal acordo. O que acredito, porém, é que no atual contexto a Fabico está de mãos atadas. Ela se vê obrigada a ampliar o leque de opções profissionais do estudante, mas ao mesmo tempo tem de usar a estultice de um acordo para isso.
O ideal é que as manifestações se direcionem para um ponto: acordos são antiéticos. Por isso, devem ser ilegais. Especialmente na área do jornalismo, extremamente restrita, esse tipo de reserva de mercado não é positivo para a sociedade. Pouco importa o nome da faculdade ou a empresa que faz isso.
UPDATE: O Sindicato dos Jornalistas afirma que o acordo é necessário para legalizar todo estágio em jornalismo. Leia mais.