Terça-Feira

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Archive for Junho 2009

Sobre o caso Maxi López e Edicarlos

com um comentário

A minha opinião sobre racismo no futebol é a mesma desde sempre: toda punição exemplar é bem vinda e necessária.

A partir disso, algumas considerações sobre o caso Maxi López e Edicarlos, ocorrido ontem:

1 – Maxi López

Nunca é demais lembrar que ele chegou no Brasil em março. Na Espanha, na Argentina, deboches racistas sempre foram moeda corrente. É lamentável? Claro que sim, assim como é profundamente lamentável o torcedor brasileiro xingar o adversário de “viado”, “bichinha”, etc. Como ainda não temos nenhum homossexual assumido no futebol brasileiro, ninguém pode denunciar a polícia um xingamento homofóbico com alguma propriedade.

Digamos que, nesse momento de adrenalina alta, ele tenha realmente xingado o Elicarlos de “macaco”. Eu acho que ocorreu, a partir do vídeo do GloboEsporte, devido à reação imediata e intempestiva do Wagner (ele poderia ser expulso por aquilo, caso Maxi reagisse). Fosse eu assessor de imprensa do Grêmio, daria as seguintes orientações para Maxi:

a – assume que pode ter ofendido o jogador. Pede desculpas pelo ocorrido e lembra que, num campo de futebol, já xingou e foi xingado muitas vezes com termos semelhantes. Nunca pensou que a coisa fosse tomar esse tipo de consequência.

b – demonstra que não é racista. Além de pedir desculpas para o jogador, veste uma camisa do tipo “Grêmio Azul, Preto e Branco”, pede desculpas àqueles que possam se sentir ofendidos com o termo, faz uma doação de mil reais – ele ganha 180 por mês, não deve pesar no orçamento – para uma fundação anti-racismo. Convida toda a delegação, que lhe deu o maior apoio no ocorrido ontem, a fazer manifestações contra o racismo nos próximos jogos. Limpa a barra, por supuesto.

c – agradece o apoio irrestrito da delegação do Grêmio, que não ouviu o que aconteceu mas demonstrou que está com ele para o que der e vier. Pede desculpas a todos pelo excesso e confirma que isso não irá se repetir.

Se não houve qualquer xingamento de cunho racista – embora eu acredite que houve, também acredito na hipótese de não acontecer – vai para a entrevista coletiva dizendo o seguinte:

a – repete o que foi dito em campo. Reitera que ofensas do gênero aconteceram mais de uma vez no campo de jogo, ontem mesmo, também de parte do jogador.

b – considera a hipótese de uma ação planejada do Cruzeiro, por ele ser argentino e, portanto, um “alvo fácil”.

c – lamenta a forma que se desenvolveu o episódio, o desgaste ao qual foi submetido, a mancha na sua imagem devido ao ocorrido. Exige um pedido de desculpas do jogador pelas inverdades que disse. Não entra com processo, mas levanta a idéia de que poderia entrar se quisesse.

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2 – Grêmio

Não vou comentar o que disse Krieger na saída do ônibus. Acho que disse bobagem, mas eu também diria, de cabeça quente, na hora do ocorrido.

A ação de resistir à entrega de Maxi López, obrigando a PM a entrar, também não cabe avaliação. Foi uma atitude irracional, uma demência coletiva, quase todos fariam o mesmo naquela situação, dado o cansaço mental, físico e psicológico.

Achei, porém, muito positiva a idéia de mandar descer toda a delegação para apoiar Maxi López na delegacia. Ninguém que estava no ônibus ouviu o que aconteceu, pois nenhum jogador estava próximo. Logo, é necessário confiar na palavra daquele que é “nosso”. O Grêmio perderia muito, em imagem institucional, se apenas Maxi descesse do ônibus e fosse para a delegacia, quiçá algemado – como o Quilmes e Desábato perderam muito com a imagem em 2005. Golaço de marketing institucional e união do Grêmio naquela atitude.

Agora, a hora é de preservar a imagem do clube. Ou seja: lembrar todas as atitudes que o clube fez contra o racismo nos últimos tempos, lembrar de Lupicínio Rodrigues, Aírton, Tarciso, todos os outros grandes ídolos negros que o Grêmio teve. Façam camisetas com imagens de vultos negros do Grêmio e coloquem nos jogadores na hora das coletivas, com a frase “Grêmio Azul, Negro e Branco”. Vendam essas camisetas nas lojas a preços baratos, 20, 25 reais. A imagem do Grêmio já foi arranhada demais com esses casos. Uma crise dessas é a melhor hora de reagir.

3 – Elicarlos

Eu não sei como reagiria a uma ofensa racista ao vivo, nos dias atuais. Já aconteceu ao vivo, já aconteceu pela internet, a última terminou com uma denúncia no Ministério Público e com acareação do denunciado na Polícia Civil. Não foi condenado, mas não repetiu a dose. Então, reconheço que Elicarlos possa estar furioso e ao mesmo tempo, perdido com essa história.

Reagiu muito mal, porém, ao divulgar primeiro para a imprensa que possa ter sido ofendido. Colocou a público antes de uma análise mais cuidadosa. Todo mundo sabe que o público, a princípio, condena – agora, Maxi será chamado e lembrado como racista por onde passar, assim como Desábato, que não foi preso. Causou um tremendo dano à imagem do argentino, passível inclusive de processo judicial.

Quem ele deveria advertir no caso é o árbitro. Foi ofendido? O Wagner tomou as dores? Quase deu confusão? Chama o árbitro e denuncia. “Esse cara está me chamando de macaco, é ofensa racista, na próxima eu não vou tolerar”. Se o árbitro levou a sério, colocou na súmula ou deu cartão amarelo – se o árbitro detalhou o caso, aí tu revela o que aconteceu. O mais provável, porém, é o árbitro não dar bola para o ocorrido. Aí, espera a súmula, no dia seguinte. Com a cabeça fria. Não foi divulgado na súmula? Ainda se sente ofendido, injuriado, com o que ocorreu? Conversa com o treinador, com a esposa, com os companheiros, com os melhores amigos, para ver se leva adiante. Aí sim, se for o caso, leva para a imprensa.

Hoje, talvez ele tenha que abraçar uma confusão que não provocaria de novo. Aconteceu com o Grafite, em 2005. Por isso, o erro de denunciar com a cabeça quente, a adrenalina de uma semifinal de Libertadores. Racismo é coisa muito séria para sair de boca de jogador de futebol na saída de campo.

No curso sobre futebol que estou fazendo, há duas semanas foi sabatinado Tcheco, capitão do Grêmio. Chamou minha atenção uma frase muito inteligente dele: “O jogador de futebol não é preparado para cuidar da imagem do clube, e deveria ser”. Essa frase se adapta perfeitamente ao caso Elicarlos. Ao jogar a denúncia no ventilador, sem provas nem indícios suficientes, ele manchou especialmente a imagem do Cruzeiro. Como? Bem, tentou colocar a imagem do Maxi López e do Grêmio na lama. Agora, o Cruzeiro e ele serão atacados das mais diversas formas, por pessoas mais preparadas, com maior discernimento e sem a adrenalina de um pós-jogo. O Cruzeiro já foi acusado, por Krieger, de ter montado uma situação para prejudicar o Grêmio. Isso é uma tremenda acusação. Faz mal para a imagem do clube.

4 – A polícia

Autuori mandou bem quando disse que no caso Grafite, em 2005, nada aconteceu e muita gente “apareceu”. Geralmente é o que ocorre em operações policiais mal planejadas contra peixes pequenos. O delegado responsável dará muitas entrevistas até a quarta-feira que vem.

Não entendi ainda qual a necessidade de fazer o argentino prestar depoimento na delegacia do Mineirão. Não poderia prestar depoimento hoje pela manhã? Por carta precatória, em Porto Alegre? Talvez o problema fosse o seguinte – como provavelmente o caso vai acabar no palavra-contra-palavra, era indispensável ter uma declaração do Maxi López antes de ser preparado o cenário. Pode ser. A resistência do Grêmio agravou uma situação que era simples, mas poderia ter sido melhor conduzida também pela Civil – que chegou a autorizar a saída do ônibus, até a PM chegar.

Escrito por Luís Felipe

Junho 25, 2009 em 2:53 pm

Publicado em 1

Editorial do Correio do Povo, 5 de junho de 2009

com um comentário

Como o site é restrito para assinantes, leia aqui o editorial do Correio do Povo divulgado nessa sexta-feira. Alguém aí falou em tiros de bazuca?

O puxa-saquismo como virtude

‘Independente, nobre e forte – procurará sempre sê-lo o Correio do Povo, que não é orgão de nenhuma facção partidária, que não se escraviza a cogitações de ordem subalterna.’

Os leitores do Correio do Povo já conhecem este trecho do editorial da primeira edição do jornal, publicada em 1º de outubro de 1895, não só pela sua constante repetição em nossas páginas, mas, principalmente, pela postura dos profissionais que aqui trabalham e que respeitam este mandamento como um dogma espelhado em cada exemplar diário que chega à casa de nossos assinantes. Não foram poucos os dissabores que colhemos pela independência retratada em nossas páginas, subordinada apenas às aspirações da comunidade: perseguições governamentais, discriminação em investimentos, censura, tentativas de proibição de acesso a informações públicas e muitas outras artimanhas próprias de chefetes inconformados com o desnudamento de suas falcatruas e incompetências. A mais comum delas, no entanto, é a tentativa canhestra de identificar o Correio do Povo com uma ou outra corrente partidária, geralmente opositora daqueles aqui criticados.

Algo que não víamos havia décadas, porém, vem se repetindo com constância nos últimos anos. Trata-se do papel vergonhoso desempenhado por alguns veículos de comunicação que, não satisfeitos com seu próprio puxa-saquismo desenfreado, tentam transformar a bajulação em virtude e a independência de outros em defeito. Ataques comuns no início do século passado, quando a maioria dos jornais pertencia a partidos ou a governos e, portanto, comprometidos com seus patrões políticos, ao contrário do Correio do Povo, que já nasceu imparcial, voltam a ocorrer nestes novos tempos, como parte da estratégia global de suas matrizes, desesperadas com a perda da hegemonia monopolizante da comunicação social no país. Buscando parecer imparciais, o mais perto que chegam do que imaginam serem as tradições gaúchas é agir como o quero-quero, que grita bem longe de onde está o ninho verdadeiro.

Não é outro o caso do jornal Zero Hora, que desde a aquisição do Correio do Povo pelo Grupo Record vem fazendo uma campanha pérfida contra o jornal dos gaúchos com a publicação de notas e insinuações como a reproduzida ontem em sua coluna de ‘opinião política’, na qual tenta imputar comprometimento partidário ao Correio do Povo. E isso aconteceu na mesma edição em que aquele jornal omitiu importantes informações sobre a percepção dos gaúchos quanto à possibilidade de corrupção no governo estadual, como a de que uma parcela relevante dos entrevistados defende o impeachment da governadora, no âmbito de uma pesquisa do Instituto Datafolha cujos dados essenciais foram publicados com destaque pelo Correio do Povo.
O Correio do Povo tem uma história de mais de 113 anos a serviço da coletividade. Esta história diz por si mesma de nossos compromissos, reafirmados na íntegra pelo Grupo Record e dos quais jamais nos afastamos. É esta história que os gaúchos conhecem e que não precisa ser reescrita, ao contrário de outros, que, talvez por vergonha de seus próprios caminhos, estão sempre à espreita de uma mudança de rumos que coloque o Correio do Povo ao seu lado na senda indigna que eles escolheram.

Escrito por Luís Felipe

Junho 5, 2009 em 2:08 pm

Publicado em edição extra