Carnaval sem rua não é carnaval
Passou uma semana e ninguém percebeu. Mais uma vez, Porto Alegre foi uma cidade completamente deserta no carnaval. Todos fugiram para o litoral, para o interior, gostando ou não de fazer festa nesses curtos dias.
Alguns obstinados resistiram. Na segunda-feira de carnaval, novamente, o pessoal da Rua do Perdão organizou uma festança. Foi na Rua da República, entre as ruas Sofia Veloso e o Teatro de Câmara. Não fui, mas soube que a chuva não acalmou os ânimos do pessoal.
Participei de alguns eventos do grupo no ano passado. Almoços na Associação dos Carnavalescos, com palestras sobre história negra e muito samba, além da comida boa. Tudo organizado com perfeição pelo Pernambuco, a Vera Daisy e outros grandes militantes não só do movimento, mas do carnaval de Porto Alegre, que tem um centenário e meio de história para contar. Todos lembram com saudade os carnavais de rua de antigamente, e se questionam sobre os motivos da rua não ser mais um palco de festa.
Eu também questiono. Afinal, o que impede a festa na rua em Porto Alegre? Por que temos carnaval em tantas cidades, praieiras ou não, e em Porto Alegre isso não acontece? O que impede o povo de sair às ruas com fantasias, tambores para acordar a terra e confetes?
O conservadorismo da sociedade do porto dos casais já mandou os desfiles para o Porto Seco. Nada contra a estrutura do Sambódromo, que é muito boa, mas quando a maior festa popular do ano é despachada para a periferia, é por que algo está errado.
Conversando com um taxista sobre o assunto, dia desses, ele me disse que costumava sair fantasiado todos os dias do carnaval, na Medianeira, na Cidade Baixa e no Areal da Baronesa (o Alto da Bronze). Hoje não dá mais, por causa da violência. Ora, a violência explica tudo? Ou o medo dela explica mais ainda?
Na Bahia, enquanto os trios elétricos estão na rua, há pouquíssimas ocorrências de violência. Aqui mesmo em Porto Alegre, existem grandes aglomerações populares que não acabam em carnificina. Na procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, não se vê uma ocorrência sequer. Ah, é um evento religioso? Vejamos então os aniversários das rádios Cidade e Farroupilha, geralmente comemorados em lugares abertos ao público, como o Anfiteatro Pôr do Sol – também não acaba em tragédia. Há bebida alcoólica, há festa, tudo isso.
Estamos numa época em que há muito populismo e alarmismo em cima da violência. Jornais saem toda semana com matérias especiais sobre os novos monstros a repousar debaixo da cama da classe média. Sempre há reações: tira-se a bebida alcoólica dos estádios, revistam os negros, proíbem os guarda-chuvas. Enquanto isso, ninguém mais conhece a história do Carnaval. O Carnaval é um evento de início do ano, sim. É quando a terra é acordada pelos tambores, para produzir muito durante a temporada. Quando as pessoas liberam a sua sexualidade, as suas vergonhas, para começar o ano sem as culpas que levarão consigo devido à dura rotina do trabalho. Aqui, vemos isso como uma coisa negativa! Parar no carnaval é coisa de brasileiro vagabundo!
Ultimamente, lemos muitas notícias e poucos livros. Há um obscurantismo histórico profundo quanto a determinados fatores culturais, o carnaval entre eles. Inclusive há garotos que durante os cinco dias de festa desdenham do carnaval gaúcho dizendo que é “coisa de brasileiro” – desconhecendo que o tradicionalismo guasca tem um centenário de anos a menos que o carnaval aqui festejado.
Porto Alegre tem que estudar mais o carnaval! Nas escolas, nas revistas, nas faculdades. Conhecer mais a festa, sem preconceitos. Quem sabe, daqui a uns anos, todos percebam que carnaval sem rua não é carnaval.
O conservadorismo da sociedade do porto dos casais já mandou os desfiles para o Porto Seco. Nada contra a estrutura do Sambódromo, que é muito boa, mas quando a maior festa popular do ano é despachada para a periferia, é por que algo está errado
Enquanto o desfile de 20 de setembro segue no centro da cidade.
André K
Março 3, 2009 em 3:08 pm
Parabens pelo blog!
Estou enviando esse site pois acredito ser muito pertinente com o assunto
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Novembro 13, 2009 em 11:41 am