Archive for Outubro 2008
Carta na mesa
Participei do podcast Carta na Mesa, sobre futebol – embora o nome remeta a baralho – na tarde dessa terça-feira.
Recomendo a todos. É melhor que o Sala de Redação. Informação de nível e sem brigas idiotas.
Visite também o Carta na Manga, excelente blog sobre futebol.
impressionante
Holanda 2×0 Uruguai, Copa do Mundo de 1974.
Observem os minutos 2:35 e 4:45.
Campeonatos Municipais de Votos: Porto Alegre
Uma explicação prévia: o título desse post é “Campeonatos Municipais de Votos” porque acredito que a analogia competitiva é a melhor possível para as eleições brasileiras. Os debates ideológicos passam longe das eleições, têm cara velha, só decidem de forma negativa. No último post vou desenvolver um pouco mais essa tese.
A aprovação do presidente Lula, atingindo picos de 60%, quase 80%, demonstra uma realidade de satisfação geral com o momento político do país. Não vou aqui entrar em detalhes sobre se este bom momento se deve às qualidades de Lula ou a outros fatores. O fato, porém, é que isso facilita a opção do eleitor por manter o que parece bom. O eleitor, em média, tem dificuldade em diferenciar boas administrações municipais, estaduais ou federais. Salvo exceções como o governo de Yeda Crusius (onde a falta de carisma da governadora é agravada pelo mau momento econômico do Estado e pelas denúncias de corrupção) as administrações, mesmo aquelas sem muitos méritos, são vistas com alguma simpatia.
Boa parte dos méritos de José Fogaça está em perceber essa tendência do povo brasileiro às reeleições – nada menos que 67% renovaram seus mandatos – mantendo uma postura altiva, de governante, mostrando o que foi feito sem baixar o nível. Some isso ao eficiente trabalho de assessoria de imprensa, com a mídia mostrando durante meses a efetividade das obras do camelódromo, do conduto, do viaduto e a beleza dos novos ônibus. Além disso, Fogaça conseguiu construir em torno de si uma aliança com inserção não apenas na classe AB com acesso aos meios de comunicação, mas também nas classes CDE, com as bandeiras históricas do PDT e do PTB.
Nessa eleição, Fogaça enfrentou uma oposição totalmente dividida em métodos e conceitos de campanha. Manuela D’Ávila era praticamente uma candidata de situação, como diria Rodrigo Alvares, pelo fato de ter na sua coligação o PPS, partido que participou do governo até o final. Era a candidata mais carismática, apesar do conteúdo superficial, sem propostas afirmativas para quaisquer dos estratos sociais. Onyx era um candidato com propostas, fez uma oposição incisiva, mas o fato da sua base eleitoral ser a mesma de Fogaça pesou contra. Luciana Genro, mais à esquerda, ainda não tem um partido com densidade suficiente para conquistar muitos votos em todas as classes.
Foi ao segundo turno Maria do Rosário, com a grife do PT (Lula, Olívio, 16 anos de experiência no governo com índices de aprovação bastante aceitáveis) e a sua própria (mais de 60 mil votos como deputada em Porto Alegre, trabalho forte nas periferias). Tinha mais propostas, uma militância com tradição de chegada, foi bem nos debates. Porém, no segundo turno ficaram ainda mais evidentes as fraquezas do primeiro turno.
A primeira delas foi a divisão no partido. Aqui recorro a Paulo Cezar Rosa, com quem tive o prazer de trabalhar. Ele afirma no seu blog que a prévia Rossetto x Rosário foi “ritualística e desgastante”. Mais que isso: expôs feridas, como o apoio de todos os caciques ao ex-vice-governador e as ligações de Maria do Rosário com a estratégia política do PT paulista (José Dirceu, Marta Suplicy). Isso provocou caras feias dentro do próprio PT. A militância trabalhou, sem dúvida, mas a diferença de ímpeto em relação aos anos anteriores foi evidente. Petistas históricos não escondiam a falta de confiança em Maria e ampliavam os seus defeitos, como o personalismo e a postura pacifista.
Outro fato prejudicial foi uma suposta supervalorização dos poderes petistas na cidade. Apesar de ter inserção em todas as classes, o PT imaginou ser capaz de conquistar a maioria dos votos sozinho. A amplitude da aliança de Fogaça, entretanto, afogou essa possibilidade. O PT é o maior partido da cidade e do país, mas é incapaz de vencer sozinho e dividido. Rejeitou os aliados históricos, que foram com Manuela; demonstrou incapacidade de aglutinar forças com antigos adversários, por divergências ideológicas históricas. O próprio coordenador da campanha de Maria do Rosário, Cícero Balestro, diz na manhã desta segunda-feira que o PT deve rever suas políticas de alianças. O exemplo de Canoas é claro: embora nesta cidade o PT seja bem mais frágil, foi possível montar um plano para a cidade com partidos e pessoas de origens totalmente diversas. O PT de Lula mandou a coerência ideológica às favas em prol de um projeto para o país e está sendo bem sucedido em muitos pontos.
Aqui, um parêntese: ressalto novamente que não vou discutir as questões ideológicas ainda neste post.
Por último, recorro novamente ao Paulo Cezar para citar uma excelente frase sua: o PT de Porto Alegre é um excelente produtor de discos de vinil. Assim como 2004 – e ele cita este exemplo no seu blog, com mais detalhes – o partido tentou maquiar um projeto repleto de conceitos derivados da década de 90. Vejo aqui e ali muitos petistas reclamando acerca de uma capitalização excessiva das campanhas eleitorais, ou seja: quem manda é o dinheiro, não as idéias; o povo teve seus votos comprados, é reacionário; perdemos por que tentamos copiar as estratégias eleitorais da direita, como pagar publicitários, pessoas que carregam bandeiras e etc.
Ora, vamos aceitar a realidade. O PT adota essas estratégias há tempos. Desde 2002, pelo menos. Não por acaso, muitos se desencantaram e foram para outros partidos. Fossem esses os únicos problemas, não veríamos tantas vitórias de petistas aliados com PP e PMDB, também pagando bons publicitários e militantes com bandeiras. O que faltou foi o PT decidir se aceitaria o profissionalismo da sua campanha e adotaria de forma integral ou se faria uma campanha ao estilo dos velhos tempos. Ficou na dúvida e acabou demonstrando os defeitos das duas estratégias.
Essa crise de identidade derrubou o partido nas últimas duas eleições municipais e pode colocar em risco o projeto para o governo do Estado em 2010. A altíssima reprovação de Yeda Crusius em comparação com o governo Lula é um prato cheio para o PT lançar um nome forte, respaldado por uma ampla coalizão, para retornar ao Piratini. Tarso elogiou o PMDB; Olívio foi visto de mãos dadas com o PDT em Canoas; Zambiasi oferece o PTB ao diálogo. O PT gaúcho está construindo uma nova identidade própria. Admitir isso é o primeiro passo para seguir adiante.
antropofagia…
…como vocês sabem, foi o movimento liderado pelos Irmãos Andrade lá nos anos 20 que tinha como objetivo chupar referências culturais diversas e fazer um sopão, sem passar no liquidificador. Misturando moranga, milho verde, massa e carne de segunda sem nenhuma coerência.
A meu ver, Caetano é o único artista dos tempos modernos (argh) que levou isso a sério sempre, o tempo todo. Ele mistura tudo desde sempre. Tenho um disco dele em mp3 publicado em 1968 (40 anos atrás), o primeiro solo, já que o primeiríssimo foi na companhia da Gal (Domingo, 1967). Ele mescla instrumentos de fanfarra (Paisagem Útil), baladas dos anos 40 (Onde Andarás), psicodelia (Alegria, Alegria), salsa (Soy Loco Por Ti América), rock (Superbacana)…
Atualmente os discos dele são a mesma coisa. Só que como nós, jovens, só conhecemos as coletâneas – discos sem identidade que só pegam o filé mignon – estranhamos o fato dele regravar “Tapinha Não Dói” e outras bizarrices. Muito provavelmente algum fã da música contestadora e/ou psicodélica sessentista deveria ter coceiras ao ouvir fanfarras e salsa num disco do Caetano.
novo Dunga?
Wianey Carlet, o meu oráculo para questões ludopédicas, defendeu há tempos que Edinho poderia ser o novo Dunga – um jogador conhecido pelo futebol feio, mas que evoluiu à medida em que amadureceu. Atualmente, a semelhança dos dois não vai além do fato de começar a carreira vestindo a camisa 8 do Internacional.
Porém, é visível que Edinho teve alguma evolução técnica. Não é mais o mesmo jogador de 2004 (quando inclusive atuou na zaga) nem de 2005, quando Muricy o forçou a jogar de líbero e era incumbida a ele a tarefa de sair para o jogo. Na memória da torcida, o Edinho de três dos últimos quatro anos ainda é muito presente. Além do mais, a torcida colorada viu grandes jogadores como Falcão, Batista, Tinga e Perdigão* atuando no meio campo, não se contenta com aqueles que só desarmam.
O mais novo comentarista de futebol Xip, o Nildo, afirma que Edinho tem uma produtividade melhor, tanto nos desarmes quanto no ataque, em relação a Magrão. Não é surpreendente. Magrão tem sido uma sombra do jogador altivo e raçudo dos tempos de São Caetano e Palmeiras. Dá passes apenas para o lado e para trás, nunca chuta a gol (o chute de fora da área era uma boa característica sua) e também não faz assistências. Nos tempos de Abel, era um jogador importante por que centralizava a distribuição do jogo – agora, com D’Alessandro, não precisa fazer isso.
Sendo assim, concordo com a idéia. Edinho, de fato, pode ser titular do Inter e Magrão, reserva.
