Terça-Feira

pílulas semanais

Archive for Dezembro 2006

SOMOS OS MAIORES DO MUNDO

sem comentários

Antes de falar qualquer coisa sobre a conquista do mundo, é preciso lembrar o princípio de um texto do mais genial escritor colorado: Luís Fernando Veríssimo:

“O passado é prólogo. Certos acontecimentos dão força a esta frase, transformam tudo que veio antes em preliminar, em mero antecedente. Ou, para usar outro termo literário, em prefácio. Você se dá conta de que tudo que houve até ali – toda uma vida, toda uma história – foi simplesmente preparação para aquele certo momento, depois do qual nada será como era. E o passado ganha uma lógica que não tinha. Você passa a entender tudo em retrospecto. Tudo tinha um sentido que você apenas não percebera, na falta do momento máximo. A vitória do Grêmio em Tóquio em 83, os anos medíocres, o quase rebaixamento, as finais desperdiçadas, os vexames, as desilusões – tudo era prólogo para ontem.

Agora ficou claro, agora ficou lógico. O próprio destaque como melhores do mundo conquistado pelo Barcelona e pelo Ronaldinho fazia parte da preparação para o nosso 17 de dezembro, que não teria o mesmo gosto épico se o adversário fosse outro. Tudo era armação para aumentar o brilho e o drama do nosso momento máximo. Tudo se encaixava. Ou você pensa que a saída do Pato e do Fernandão, ontem, foi obra do acaso, esse autor sem imaginação? O resultado de ontem veio sendo construído aos poucos, desde antes da fundação do Internacional, antes de Pedro Álvares Cabral, antes de Homero e das Pirâmides.

E eu sabia que havia uma justificativa histórica para o topete do Gabiru. “

Eu não consigo lembrar da quantidade de promessas que fiz caso o Inter fosse campeão do mundo. Talvez tenha que recordar 1995, quando após a vitória do Corinthians sobre o Grêmio na Copa do Brasil, fui dormir feliz, mas falei para a mãe que queria ver “o mar vermelho” conquistar uma Copa do Brasil.

Acho que foi ali que comecei um rosário de promessas. ‘95 foi um ano humilhante demais, me recordo. Para mim, pessoalmente; no futebol também, o Grêmio campeão da Libertadores e o Inter quase cai para a segundona por causa de dívidas com o San Lorenzo. No dia 28 de novembro daquele ano, Grêmio X Ajax, a mãe marcou uma consulta com a minha psicóloga exatamente no horário da partida. Para que eu não pudesse acompanhar nem sofrer com o iminente bi-mundial gremista.

Assisti os pênaltis e soltei um grito de vibração enlouquecido no 13º andar do Coliseu, escritório do Elias, onde esperávamos o pai para almoçar. Danny Blind convertera o último pênalti, Ajax campeão. “Vocês não são bi, seus desgraçados!” gritei com a força dos meus 10 anos de idade, menos de 1,50 de tamanho, provavelmente. Foguetes espoucavam dos prédios maiores do centro.

Rodrigo Vianna, a quem encontrei na Goethe 12 anos e 19 dias depois, disse pra mim debaixo do sol escaldante:

“Eu sou bi campeão do mundo. O primeiro foi em ‘95 com o Ajax”

Recordei a data. Claro, é coisa de doente pensar assim. Aquela vibração foi um engasgo, como a vibração daquele que caiu de quatro andares e percebeu que apenas quebrou as duas pernas. Bem diferente do que aconteceu na tarde quente do dia 17 de dezembro. Era uma consagração popular. Os tambores da Popular e da Camisa 12, então brigados, desfilaram unidos pela Goethe como uma escola de samba que fazia voltas pela Sapucaí. Atrás da banda, gente de todos os matizes. Desembargadores, como o presidente do Tribunal de Justiça; médicos, como o Secretário Estadual da Saúde e o conselheiro do Cremers que encontrei no caminho:

“Doutor! Tu por aqui”
“Meu filho!!! Não me chama de doutor, hoje é tudo nosso”

E mendigos, como o que queria dividir uma garrafa de cachaça comigo:

“Isso dá gosto de ver, o povo na rua festejando! Bebe comigo, bebe”

Jornalistas, jornaleiros, enfermeiros, torneiros mecânicos, desempregados, estudantes, motoboys, indigentes. Estavam todos na Goethe. Todos. Era o mar vermelho com o qual eu sonhava em 1995. Em respeito à festa pagã que, saberíamos depois, encantava o Rio Grande do Sul em rubro, o céu não estava azul.

Assisti à peleja final do Parangolé, descanso comum nas noites de incerteza na Lima e Silva. Aquele era um dia de incerteza. Previa voltar para casa, resolvi ver junto à amizade colorida da Júlia, o Guilherme, que viraria com ela a noite de sábado. Não queria a Goethe, pois a minha desconfiança era demais para aquele momento. Não queria em nenhuma hipótese um cenário de tristeza. Me afetaria muito, mais do que estava me afetando a perspectiva do jogo histórico. Não fiquei tão nervoso como na final da Libertadores. No dia 16 de agosto, eu não conseguia falar, comer ou pensar em outra coisa. No dia 16 de dezembro, meu desespero não era tão grande. Aquilo era uma coisa boa, muito boa. Disputar o título mundial, chegar à final contra uma das mais encantadoras equipes da história do futebol, contra um dos maiores jogadores gaúchos de todos os tempos. Vestir a camisa colorada no estádio de Yokohama já era uma glória por si só.

“Não te preocupa, nós vamos ser campeões do mundo”, dizia a minha mãe, em todos os dias que antecederam a peleja final. Inabalável convicção, a dela. “Está escrito. Chegou a nossa vez”. Nenhum argumento era possível ante essa certeza. Nem o Ronaldinho, nem as goleadas implacáveis que o Barça impunha aos seus adversários. Nem a perda de quatro titulares, dois deles indispensáveis ao Colorado. Nem a indefinição do time, as atuações de pouco brilho. Nada detinha o seu vaticínio. “Nós vamos ser campeões do mundo. Tu continua não acreditando, Felipe!? Depois de tudo que eu já acertei, tu continua não acreditando em mim?!?”

De fato, não acreditava. Uma defesa íntima, um escudo interno contra a minha possível decepção. Sofri demais nessa vida com o Inter. Fui adolescente na década de 90, só isso pode dizer tudo. Não queria sofrer justo no melhor momento das nossas vidas.

Quinta-feira à noite, após estréia do Barcelona, um amigo meu foi jocoso:
“Quero ver teu último sorriso antes de domingo”
Antevia, como mais da metade do Rio Grande do Sul, entre colorados céticos e gremistas eufóricos, o massacre catalão. Os 4×0 sobre o América do México foram a última e derradeira prova de grandeza. O Barça era uma máquina capaz de triturar qualquer adversário. Aquele era o terceiro time mais forte do Mundial, nomes como Cuevas, Claudio Lopez e Blanco habitavam as suas trincheiras. E o Internacional, coitado, sofrera para vencer o Al Ahly do Egito, levando gol de um angolano e conquistando o tento final num cabeceio chorado de Luiz Adriano.

Eu sorri. No mínimo, era o Barcelona, não era o Hamburgo.

Muitos amigos dizem que a glória mundial só foi comprovada no desfile apoteótico por Porto Alegre, na terça-feira. Antes, parecia um delírio coletivo, uma alucinação de heroísmo. Como assim, Adriano Gabiru? Como assim, Inter campeão do mundo? Como assim, campeão de todos os continentes? É verdade que na taça está escrito FIFA? É verdade que o Ronaldinho chorou, como choraria qualquer outro gremista? É verdade que todos os olhos do mundo do futebol se voltaram para o Gigante da Beira-Rio, de onde saímos todos chorando a dignidade numa noite quente de dezembro de 2002, onde quase entregamos os pontos do rebaixamento e cantamos o hino ajoelhados defronte ao portão 8? É verdade que o Inter é o melhor do mundo, e conquistou isso no Japão, onde a seleção trouxera o Penta quatro anos antes? É verdade que nunca houve igual?
Naquela terça-feira, eu estava trabalhando. Antes, cheguei a passar no Beira-Rio para sentir como estava o clima. Encontrei novamente o Rodrigo Vianna, com uma faixa na cabeça e o olhar em chamas como naquele domingo. Não parecia ser verdade. Tinha de trabalhar, então vi a festa apenas pela TV. Continuava não parecendo verdade. Até Fernandão pegar o microfone e cantar o “VAMO VAMO INTER” , que embalou o Internacional rumo a conquista da América. Não chorei novamente, como havia chorado em todo aquele domingo.

Mas acreditei.

Era verdade sim, e continua sendo verdade.

Somos os maiores do mundo.

A Terra até pode continuar azul, só de birra. Mas todos os seus habitantes inteligentes, que ainda estão incrédulos, vão olhar para o seu sangue e perceber que não poderia ser diferente.

Que ano glorioso foi este 2006.

Escrito por Luís Felipe

Dezembro 17, 2006 em 6:34 pm

Publicado em 1

fui eu que fiz

sem comentários

Escrito por Luís Felipe

Dezembro 3, 2006 em 8:55 pm

Publicado em 1