Archive for Setembro 2006
diante do fim da vida
O momento da proximidade da morte é um dos momentos mais célebres da existência. Pois qualquer simples gesto pode se tornar lembrança sublime no futuro. As recordações que guardamos dos momentos em torno da partida, dos nossos entes queridos, são guardadas para todo o sempre, desde o livro lido no parque até a roupa vestida na meia-noite.
Pesquisei algumas colunas do radialista e emérito jornalista Jorge Alberto Mendes Ribeiro, falecido em 9 de julho de 1999. A sua coluna no Correio do Povo ainda existia, assinada por Joabel Pereira. Condolências não faltam no jornal do dia seguinte – curiosamente o dia seguinte à morte de outro gaúcho célebre, Jayme Caetano Braun, ambos hoje são nome de viaduto na terceira perimetral.
Mendes Ribeiro morreu de câncer, logo não assinava mais as suas colunas no dia do falecimento. Dei-me ao trabalho de procurar a sua última coluna, por mera curiosidade. Deparei com um texto lindíssimo, do dia 21 de maio de 99. Não sei se pela proximidade do fim da vida, não sei se por pura inspiração, o fato é que esta foi a sua última manifestação jornalística. Uma grande lição, como tantas que ele passara na sua coluna. Fui alfabetizado lendo o Correio do Povo, segundo a minha mãe. Meu pai era fã do Mendes Ribeiro, líamos a sua coluna juntos desde o início da minha adolescência. Sempre admirei a sua independência política, não se furtando a distribuir opiniões polêmicas e confrontosas.
Pois bem, abaixo vem o texto:
TUDO PASSA DEPRESSA
Notaram? É outono. As árvores perdem folhas, as flores ficam mais raras. O verão sumiu. Daqui um pouco mais chegará o inverno. A gente pensa e acaba assustado: como tudo passa depressa. O ontem já é muito distante. O amanhã tão próximo, quase o hoje. Na marcha batida para o fim ninguém se apercebe da velocidade com que os ciclos acontecem. Ou, quem sabe, tentando a fuga, se engolfam tanto e tanto que acabam restringindo ainda mais o lapso reconhecidamente curto? No aparente pessimismo das colocações feitas há que buscar o bom. Em qualquer etapa de nossas vidas foi, é e será impossível evitar o fim do verão. Deter a chegada do outono. Impedir a manifestação do inverno. Gozar indefinidamente a primavera. O homem deve assumir seu tempo. Quando não o assume, a vida acaba dando o tapa da realidade ainda com mais dureza. Sim o verão acabou. Aconteceu o sol. Inobstante, lamentamos a seca. No recesso do outono, na transição entre os dois extremos até que o inverno chegue, a natureza ensina não ser sábio apressar o mundo. Tentar fazer os ponteiros correr além do normal. Ou, ânsia incorrigível, parar o contar das horas quando elas se apresentam felizes.
VIVER SEU TEMPO
No inverno há frio e acontecem cheias. Sem ele a terra seria árida. Os rios não se reabasteceriam. Lembrem, foi o inverno que deteve conquistadores e tiranos na ânsia de dominar o mundo. Será igual na primavera. No sombrio outono a paisagem se torna triste. Os prós e os contras. O importante é que a natureza se assume. Quando as estações aparecem vestidas com roupagens pouco marcantes, o homem se inquieta. Por que não pensa quando pretende ser o que não é? Quando não vive seu tempo?
VIVÊNCIAS
O tempo não envelheceu o homem. Há jovens muito velhos. E velhos muito moços. Ter a idade da vida, eis um segredo e uma lição. O calendário não conta. Conta assumir o tempo. As quatro estações acontecem todos os anos. Para o homem podem acontecer todos os dias. Basta não se iludir com a perpetuidade de primaveras e verões. Não se assustar do outono. Não pensar no inverno como fim. Já imaginaram que é depois dele, e não sem ele que chega a primavera? Todos os momentos felizes têm seu preço. Todos os maus, compensações. Outra forma de dizer: não há bem que sempre dure, nem mal que se não acabe. Somos um somatório dos dias já vividos. O tempo não se equivoca. Vamos mimar o agora. O ontem, passou. O amanhã, quem sabe? Vamos saborear cada minuto como dádiva divina. Vamos viver, eis tudo.
TALENTO ALHEIO
M. Bontempelli: ‘O tempo é a essência mais misteriosa da qual possamos obter alguma sensação, e talvez é a mais reconhecível imagem de Deus’. Aos leitores de sempre, obrigado e até breve. Estou saindo de férias.
JAMAIS DESANIMAR
A torcida colorada anda desenxabida nas últimas semanas. Nos últimos cinco jogos pelo Brasileiro, foram três derrotas, contra times que não chegam ao nível do campeão da América. O rival galopa em direção ao vice-campeonato e o Inter marcha para uma posição intermediária, que não interessa ao clube – para o Inter, qualquer posição entre o segundo colocado e o primeiro rebaixado nada significa, uma vez que já está classificado para a Libertadores. Fernando Carvalho parece desdenhar das esperanças do torcedor quanto a uma tríplice coroa, quando declara: " Alexandre Praetzel certa vez afirmou que a torcida colorada é muito "sofredora", costuma fazer grandes dramas das suas tragédias. Não está de todo errado, não foram poucos os campeonatos que perdemos sem poder perder. Mas também foram muitos os campeonatos que vencemos sem condições de ganhar. Quero acreditar na razão do presidente Fernando Carvalho, não baseada somente em uma idolatria vã, mas nos preceitos estáticos do futebol. Nenhum clube brasileiro venceu a Libertadores e o campeonato brasileiro ao mesmo tempo. Não falo da Taça Brasil, onde o Santos foi campeão entrando nas semifinais – aí é fácil. O Cruzeiro, em 1976, perdeu a taça ao Internacional; o Flamengo de 1981 capitulou diante do Porto-Alegrense; o mesmo Porto-Alegrense não foi páreo para o Flamengo em 83, para o Botafogo em 95. Na década de 90, quando o Brasil ganhou o maior número de taças continentais, nem o super time do São Paulo conseguiu manter o nível – Flamengo campeão de 1992, Palmeiras em 1993. O Cruzeiro chegou perto do rebaixamento em 1997, o Vasco viu o Corinthians levantar a taça em 98, em 99 o Palmeiras perdeu a classificação para as finais diante do gol antológico de Dunga no Gigante. Em 2005, o São Paulo apenas assistia a nossa ímpia e injusta guerra contra os milhões de dólares da MSI pelo campeonato. Para negar a história, o Internacional precisaria de um time fenomenal, o que não temos. As saídas de Jorge Wagner, Bolívar, Tinga e Rafael Sobis amputaram o poder de fogo da equipe, que precisa ser revitalizado, reconstruído. Se há algum erro de Fernando Carvalho nessa gestão, ele não corresponde a frase do primeiro parágrafo; corresponde ao tamanho da perda enfrentada pelo colorado sem esses quatro heróis da América. Os reforços podem ser até melhores que os jogadores que saíram, mas não serão iguais. Não será a mesma unidade de grupo que entrava na boca do túnel mordendo os lábios com sede de vitória. Os que desanimam devem mirar-se nas palavras de Tinga. Quando perguntado sobre a origem de tamanha força nos jogos da Libertadores, ele citou como ponto de virada a derrota no Campeonato Gaúcho. Perder um título tão certo deu aos 25 jogadores inscritos a obrigação de demonstrar nas quatro linhas que não era um grupo fadado ao vice-campeonato em tudo. Ou seja: foi uma derrota que acendeu a chama da estrela americana que levamos em nosso peito. É preciso cair para aprender a andar; é preciso perder para poder ganhar. Façamos votos que esses infortúnios, como na quarta-feira, acendam mais uma estrela no nosso peito. Nossos filhos não vão lembrar do Marquinhos Paraná tocando a bola para um gol vazio; mas guardarão nos seus corações Fernandão levantando a América e, quiçá, o mundo inteiro.