Terça-Feira

pílulas semanais

Archive for Agosto 2006

gasp

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Foi então que, desesperançoso de dias melhores, resolveu tomar o primeiro ônibus da parada. Nunca tinha pego ônibus naquele lugar enigmático de toldo amarelo seguro por um poste cinza, a quarenta metros da porta de casa. Sequer sabia que ônibus passava ali. Saía sempre pelo outro portão, dos fundos, onde ficava a portaria principal do prédio. Dava uma volta enorme, mas tinha medo de encarar aquela ruazinha que nem asfalto tinha, aquele portão onde só entravam carros e aquele homem com cara de sádico que abria e fechava a grade. Era de noite, ainda. Enfim, não havia muito o que fazer no mundo senão ver a novela, jogar Age of Empires e chorar. Perto dessa desilusão, um porteiro mal-encarado era o de menos.
 
Próximo da grade, foi abordado: – Onde você vai, menino?
- Eu vou sair, aqui é mais perto de casa.
 - Ah bom. Vou te liberar dessa vez, mas aqui só sai carro.
- Como o senhor é gentil. (não mediu as consequências do sarcasmo, mas elas foram nulas)
 
Passou a grade e ficou esperando. Viu uma casinha ali ao lado e cogitou do ponto ser de táxi. Não olhou a placa azul, por que mesmo assim pegaria um táxi. Olhou na carteira. Tinha dinheiro. Até para pegar uma cerveja no meio do caminho, por mais que se recusasse a beber sozinho na rua. Ali também estava o discman, onde poderia escutar uma música até decidir o que fazer. E esperou. Não mais que dois minutos. O ônibus vinha enquanto ele estava trocando o CD, de Barão Vermelho para Muddy Waters. Na ânsia para dar o sinal, deixou o CD do Muddy cair no chão. Pensou em pegá-lo, mas se o fizesse não saberia quando teria oportunidade de entrar novamente no coletivo. Que se dane o Waters, vou subir.
 
Não tinha ninguém no ônibus senão um bando de hippies com cheiro de maconha e sândalo no fundo, o cobrador, o motorista e um senhor bem vestido dormindo de cara inchada. Sentou-se no meio. Um dos cabeludos puxou um violão, outro uma gaita de boca e começaram a fazer um som. Dez minutos depois, pensou em fumar com eles, ou comprar alguma baura. Com medo das risadas e gozações, continuou quieto no seu canto. Os hippies não fumaram, mas acenderam um incenso com cheiro de maconha para provocar o cobrador. Tão logo entraram numa grande avenida, o cobrador exigiu que eles descessem – agora entrariam mais passageiros. O cabeludo do violão riu e logo o cobrador enfiou uma arma na sua boca. Calibre 38, reluzente, tambor esmaltado, linda. Saíram sem dizer uma palavra.
 
 

Escrito por Luís Felipe

Agosto 31, 2006 em 5:54 pm

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SOMOS CAMPEÕES DA AMÉRICA

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Comprei o Diário Gaúcho, era o único jornal que faltava. Li, reli e reli novamente todos os detalhes da cobertura da decisão de ontem, onde o Sport Club Internacional sagrou-se campeão da Libertadores da América. O único clube gaúcho a vencer a Libertadores no século 21, o segundo clube brasileiro a fazê-lo.
A cidade amanheceu pintada de vermelho e branco, um dia nublado onde até o azul do céu se escondeu. Eu particularmente ainda não concebi totalmente o fato do Inter ser campeão da américa. O último título de relevância acima do regional foi em 1992, uma miserável Copa do Brasil, título que até clubes de segunda divisão ganham. Comemorei muito, chorei muito, mas quando ouvi no rádio a enquete “Quem você acha que vai vencer o Mundial Interclubes, Internacional ou Barcelona?”, eu não consegui acreditar no que ouvia. O meu Inter, clube ao qual sou associado, clube que amo demais, vai disputar o mundo em dezembro. Contra o time de maior torcida do mundo.
Vencendo no Japão, tudo se inverte em relação à flauta no Rio Grande do Sul. O lado tricolor perde o único mote que ainda restava, uma vez que agora até algumas músicas da torcida não podem mais ser cantadas. Inclusive aquele cântico racista “Somos campeões do mundo, da Libertadores também, chora macaco imundo, nunca ganhou de ninguém” agora acabou para sempre. Pelo menos os defensores desses versos nunca mais terão de assumir a atitude hipócrita de afirmar que dizer “macaco” não é racismo.
Mas voltando ao Inter. Em relação a grandeza, títulos, nossos verbos são conjugados no presente, desde ontem. Presente que diz tudo, trazendo à torcida alegres emoções. Emoções que me fizeram sair chorando copiosamente de braços abertos pelo entorno do Beira-Rio ontem à noite, ouvindo o “Tema da Vitória” e o hino oficial. Perdi os meus amigos, comemoraríamos na Goethe. Achei meu irmão, comemoramos por outras tantas ruas. Acordei toda a vizinhança. “VOCÊS VÃO ME OUVIR, EU SOU CAMPEÃO DA AMÉRICA”.
No campo, foi um jogaço de futebol, melhor que a grande maioria das partidas da Copa do Mundo. Mas eu não vi de maneira racional. Até o primeiro gol do Fernandão, andava de um lado para o outro no corredor da arquibancada popular, mentalizando energias positivas. Quando a rede balançou, chorei muito. Não estava sozinho. O gol do São Paulo pareceu uma miragem. O segundo gol do Inter, para mim, também. Quando Tinga cabeceou para as redes na minha frente, diante de uma platéia ensandecida de 54 mil colorados, eu talvez tenha sido o único que parou diante da cena. Incrédulo. Olhando para a vibração nas arquibancadas sem acreditar que era verdade. “É verdade, acredita véio, vamos ser campeões da américa”, gritava um amigo meu. Fui abraçado, caí no concreto da arquibancada, ainda sinto dor. Dor que não foi nada naquele momento. O São Paulo empata, com um a mais. Não vi mais o jogo. Cantava com as mãos nos olhos, esperando o fim. Depois, a apoteose. O hino. A vitória. A correria dos jogadores. Os abraços dos torcedores. Quem não gritava, chorava. Quem chorava, também gritava. Ninguém arredou pé. Uma hora diante do campo, à espera do capitão Fernandão levantar a taça. Quase não vi aquilo. Por um acaso achei uma brecha, um lance acima de onde estavam duas meninas mais baixas que eu. Épico, histórico, heróico. Um presente de aniversário fantástico para a minha mãe, Bolívar e outros tantos colorados neste mundo. 16 de agosto de 2006.
Não escrevi sobre futebol neste blog desde as oitavas de final da libertadores, pura superstição. Se deu certo não escrever contra a LDU, o Libertad, por que vou desobedecer os astros agora? Estou guardando todas as capas de jornais, espero baixar todos os vídeos, narrações, músicas, tudo para lembrar o jogo de futebol mais incrível da minha vida. A Academia do Povo (só existe uma) ilumina toda a nossa cidade. Respeitem este time que é quatro vezes campeão nacional e atual campeão da Libertadores.

Escrito por Luís Felipe

Agosto 17, 2006 em 7:11 pm

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a pureza da resposta das crianças

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Tudo dói mais quando está próximo, ao alcance da visão dos olhos. A classe média porto-alegrense para mim é mais próxima do que o Líbano ou os ônibus queimados de São Paulo, até porque sou parte dela. Portanto, não me acusem de mesquinhez se me impressiona mais o suicídio deste guri do que as bombas dos crápulas israelenses ou os atentados da bandidagem paulista.
 
Pessoas se suicidam o tempo todo e não saem no jornal, justamente por que a norma impede que tal prática seja divulgada. Minhas opiniões acerca do tema são muitas, baseadas principalmente no eixo espírita, que considera não existir apenas uma vida. Em outras palavras, como diria a Vivi, se o suicida pensa que os problemas acabam assim, deveria saber que estão apenas começando. Isso é obviamente uma questão de crença.
 
O chocante na coisa é que o objeto do suicídio é um piá de 16 anos, sem capacidade mental para decidir nem em que rua entrar com um automóvel, ou em que país morar sozinho. A lei não permite estas decisões, justamente baseado num senso jurídico que não concede tais direitos à pessoas em formação (moral, intelectual, física). A responsabilidade diante da vida de alguém, mesmo a sua própria vida, é algo muito mais complexo do que dirigir ou sair do país. Ninguém pode estar preparado para encerrar a sua vida, milhões de vezes menos um guri de 16. Perdi alguns minutos lendo seu blog. Ele tinha um excelente gosto musical, sabia fotografar, se encantava pelos seios das meninas da sua escola como qualquer outro guri da sua idade. Não era uma aberração. Nem um gênio incompreendido. Era só um guri de 16.
 
Revolta saber que tal ato desesperado foi incentivado por outras pessoas. Um fórum de suicidas, onde as pessoas começaram a falar sobre a sua morte como se falassem sobre a janta de amanhã à noite! Isso são requintes de crueldade, uma falta de humanidade inacreditável desta gente. Essa crueldade não é motivada pelo ódio, como no crime passional. Nem na ambição desmedida, na obssessão, na irracionalidade, como na maioria dos outros crimes. Esta é a crueldade de testemunhar um dos atos mais vis da esfera humana, motivado pelo simples desejo fútil da curiosidade. É uma crueldade social, motivada pela enlouquecida necessidade de fazer parte e saber do que se passa em um mundo que transcendeu os limites do espaço tempo. Estamos tão viciados em informação que somos espectadores de um suicídio de um menor de idade e abordamos isso como se fosse a morte de um personagem de videogame. Um coraçãozinho a menos no Mario. Uma vida a menos do Sonic.
 
São tempos estúpidos. Há  pouco escrevi sobre o que resta de humanidade em nós, quando um paciente admitiu aos prantos que torcia pela morte do outro para poder dormir. Diante de um mundo onde as pessoas torcem pela morte das outras para poder digitar letras virtuais diante de uma tela de luz, nada é mais humano do que se lamentar em lágrimas pela crueza humana, como fez o paciente. Nestas horas, fico feliz por que jamais desisti de buscar a resposta do que é ser feliz.

Escrito por Luís Felipe

Agosto 10, 2006 em 7:54 pm

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